Ayrton Montarroyos

Porto Alegre/RS
Teatro AMRIGS

Ayrton Montarroyos 64

09/05/2019 17:00
Classificação

Show MPB

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Ayrton Montarroyos em Porto Alegre/RS
Um mergulho no nada

Cantor, que se destacou no Programa The Voice, faz tournée no sul do país, com patrocínio da Porto Seguros.

Não é de hoje que boas safras de artistas brasileiros têm se voltado a fazer trabalhos autorais, criando e cantando as próprias composições. Isso, inegavelmente, não deixa de ser rico e louvável. Nos últimos tempos, porém, quando alguém aparece com um “disco de intérprete”, quase que de bate-pronto já se torce o nariz. Compreensível. Afinal, é risco imenso. A arte da (re)interpretação, por si só, desafia cantores e cantoras a trazer algo de novo. Senão, qual o sentido de regravar uma canção se for somente para copiar, apenas para brincar de papel-carbono vocal?

Sabedor disso, cheio de lucidez e de personalidade, surge Ayrton Montarroyos com seu novo álbum. Em dueto com o experiente Edmilson Capelupi (violão 7 cordas), Ayrton gravou este disco em uma única apresentação no Teatro Itália. Não pude assistir ao show, mas ao ouvir essas dez faixas a sensação é a de estar lá, na plateia, colado ao palco. Quando o álbum chegou às minhas mãos, tive a mesma reação de Chico Buarque quando recebeu a fita para escrever o texto da contracapa do LP Todo o Sentimento, de Elizeth Cardoso e Raphael Rabello. Tal qual Chico diante do trabalho de Elizeth e Raphael, ouvi o disco de Ayrton e Capelupi “quatro vezes de enfiada”. Nos dias seguintes, por um magnetismo inescapável, tornei e retornei ao álbum por muitas vezes. O porquê de evocar Elizeth e Raphael aqui? Simples. Desde aquele duo, registrado no início da década de 1990 - e, justiça seja feita, também das parcerias entre Rabello e Ney Matogrosso, no mesmo período, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina e do encontro entre Mônica Salmaso e Paulo Bellinati -, não se ouvia um disco no formato voz e violão tão marcante como este.

Já que estamos falando de um álbum de intérprete, é bom lembrar que o primeiro passo para escapar do lugar-comum é a escolha do repertório. Neste sentido, apesar da curta idade, Ayrton Montarroyos dá uma aula. Vai de contemporâneos seus, como Ylana Queiroga (“De pé na estrada”), Lirinha, Junio Barreto e Bactéria (“Jabitacá”) a veteranos como Djavan (“Açaí”), Tom Jobim e Vinicius de Moraes (“Brigas nunca mais”), Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho (“Doce de coco”) e Chico Buarque (“Mar e lua” e “Cálice”, esta em parceria com Gilberto Gil).

Somado a isso, há ainda um sem-fim de virtudes - e não virtuosismos e firulas - nas interpretações enriquecedoras de Ayrton e Capelupi. Basta ouvir o que a dupla faz ao desencravar joias como “Sem pressa de chegar” (em rara parceria de Capiba com Delcio Carvalho), “Sodade Matadeira” (gravada originalmente por seu próprio autor, Dorival Caymmi, 70 anos atrás; e, agora, com o violão lembrando “Passaredo”, de Chico e Francis Hime, na introdução) e “Dona divergência” (punhal poético de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, gravado anteriormente por nomes como Jamelão, Jards Macalé, Linda Batista e Tom Zé, e, desta feita, com Montarroyos sábia e corajosamente transmitindo a densidade dos versos da canção).

Não é toda hora que se escuta um disco capaz de combinar simultaneamente tanta sutileza e tanta contundência. Ouvir o álbum de Ayrton Montarroyos e Edmilson Capelupi é como entrar num caleidoscópio de passado, presente e futuro. E, aqui, falar de futuro significa já ansiar por um volume 2 deste duo tão espontâneo quanto sobrenatural.


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